Bem-estar

Fitoterapia na menopausa: o que a Cochrane encontrou

Isoflavonas, trevo-vermelho e outros fitoterápicos são populares para sintomas da menopausa. Uma revisão Cochrane com mais de 4 mil mulheres mostra o que a evidência sustenta.

Cápsulas, grãos de soja e trevo-vermelho sobre mesa de madeira sob luz natural suave.
Resposta direta

Uma revisão Cochrane que reuniu 43 ensaios clínicos com 4.084 mulheres não encontrou evidência conclusiva de que suplementos com fitoestrogênios (como isoflavonas de soja) reduzam a frequência ou a intensidade de fogachos e suores noturnos. Extratos concentrados de genisteína mostraram algum sinal que merece mais pesquisa. Não houve evidência de dano em uso de até dois anos, mas muitos estudos eram pequenos e de baixa qualidade metodológica.

Fitoterápicos como isoflavonas de soja, trevo-vermelho e outras plantas com fitoestrogênios são procurados por muitas mulheres para aliviar sintomas da menopausa sem recorrer a hormônio. A pergunta é: funcionam?

A resposta mais honesta que a ciência tem hoje é: a evidência não é conclusiva.

O que a Cochrane encontrou

Uma revisão Cochrane — uma das fontes mais respeitadas em medicina baseada em evidência — reuniu 43 ensaios clínicos randomizados, com 4.084 mulheres na transição ou próximas dela, para avaliar produtos, extratos e suplementos com altos níveis de fitoestrogênios contra placebo, nenhum tratamento ou terapia hormonal.

A conclusão: não há evidência conclusiva de que suplementos com fitoestrogênios reduzam a frequência ou a intensidade dos fogachos e suores noturnos. Isso contraria boa parte do que circula sobre esses produtos.

Uma exceção parcial: extratos concentrados de genisteína (uma substância derivada da soja) mostraram algum sinal de redução no número de fogachos diários, e os pesquisadores recomendam investigar mais essa substância especificamente. Para os demais tipos de fitoestrogênio, nada indicou que funcionem melhor do que não fazer nada.

Por que os resultados são tão confusos

A própria revisão aponta o motivo: muitos dos 43 estudos eram pequenos, de curta duração e de baixa qualidade metodológica, com tipos de fitoestrogênio variando muito entre eles. E há um detalhe que costuma ser esquecido — o efeito placebo nesses estudos variou de 1% a 59% de redução dos sintomas só com placebo. Quando o placebo sozinho já reduz sintomas nessa proporção, fica muito difícil provar que o fitoterápico fez alguma diferença real.

O lado bom: segurança de curto prazo

A revisão não encontrou evidência de efeitos adversos — como estimulação do endométrio (a mucosa do útero) ou da vagina — em uso de até dois anos. Isso não prova eficácia, mas é uma informação relevante para quem já usa ou está pensando em usar.

O que fazer com essa informação

Se você já usa um fitoterápico e sente que ajuda, a informação de segurança é tranquilizadora — mas vale lembrar que parte do efeito percebido pode ser o mesmo efeito placebo que os estudos mediram. Se você está pensando em começar, entenda que a promessa de “alívio garantido” que aparece em muita embalagem não tem, hoje, respaldo científico forte.

Converse com um médico antes de começar qualquer fitoterápico, principalmente se você toma outros medicamentos — interação é possível, e um profissional consegue avaliar seu caso específico. Isso vale ainda mais se você está considerando chá ou feno-grego como alternativa aos fitoterápicos mais estudados.

Quando procurar um profissional

Se os sintomas da transição estão pesados o suficiente para você considerar um fitoterápico, essa já é uma boa hora de conversar com um médico sobre todas as opções — incluindo a reposição hormonal, que tem mais evidência de eficácia para fogachos intensos. Apenas cerca de 20% das mulheres no climatério no Brasil usam reposição hormonal, mas para quem tem sintomas incapacitantes, ela costuma ser a opção mais estudada.

Perguntas frequentes

Fitoterápicos funcionam para fogachos na menopausa?

A evidência não é conclusiva. Uma revisão Cochrane com 43 estudos e mais de 4 mil mulheres não encontrou prova consistente de que fitoestrogênios reduzam a frequência ou intensidade dos fogachos, embora extratos de genisteína tenham mostrado algum sinal que merece mais pesquisa.

Fitoterápicos para menopausa são seguros?

A revisão Cochrane não encontrou evidência de dano — como estimulação do endométrio ou da vagina — em uso de até dois anos. Mas isso não significa eficácia comprovada, e vale conversar com um médico antes de usar, especialmente se você toma outros medicamentos.

Por que os estudos sobre fitoterápicos são tão inconclusivos?

Muitos dos 43 ensaios da revisão Cochrane eram pequenos, de curta duração e com formulações diferentes entre si — o que dificulta uma conclusão firme. Houve também um efeito placebo forte (de 1% a 59% de redução dos sintomas só com placebo), o que complica ainda mais medir o efeito real do fitoterápico.

Fontes consultadas

  1. Phytoestrogens for vasomotor menopausal symptomsCochrane · acesso em 19/08/2026
  2. Menopausa: cerca de 17 milhões de mulheres no Brasil estão no climatérioFEBRASGO — Federação Brasileira das Associações de Ginecologia e Obstetrícia · acesso em 19/08/2026
Retrato de Jerônimo Leite
Escrito por

Jerônimo Leite

Pesquisador em saúde e nutrição

Lê os estudos originais e traduz o que eles realmente dizem — incluindo quando dizem "ainda não se sabe".

Não é médico, nutricionista nem profissional de saúde registrado, e não faz diagnóstico, prescrição ou acompanhamento clínico.

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